Um olhar
antropológico - 95 (Publicado no Semanário "Registo", em 21 de Outubro de 2012)
O “efeito geração”
numa sociedade Educada
Para que servem as universidades? O que justifica que a
sociedade invista nelas recursos que poderiam ser empregues noutras coisas,
porventura mais úteis? Do ponto de vista dos estudantes e das suas famílias,
uma coisa é certa: o investimento nos estudos superiores é retribuído por uma notável
diferença de rendimentos (após graduação) em relação aos não graduados. Diferença
positiva que varia dum país para o outro, mas é importante e em Portugal é até
muito superior à média europeia. Por outras palavras, ter um curso superior em
Portugal produz um privilégio maior que nos outros países em relação a quem não
tem esse tipo de curso. Isto vai contra a ideia de senso comum segundo a qual
“não vale a pena estudar se é para não ganhar mais ou ficar desempregado, etc.”
Tomando como base (100) os rendimentos dos trabalhadores que têm apenas o nível
do secundário, os titulares de cursos superiores (25 aos 64 anos) auferem 170. A taxa de desemprego é
também menos elevada (menos de metade), o que não surpreende (fonte “Education
at a glance, OECD Indicators, 2012”).
O efeito da educação a nível familiar é também uma mobilidade social ascendente
e esse efeito é mais forte em Portugal. Porém há efeitos que ultrapassam de
longe as vantagens individuais dos estudos universitários. Em primeiro lugar,
um efeito cultural: uma sociedade que, como a portuguesa, tem cinco ou seis
vezes mais licenciados que as duas gerações anteriores é mais culta, mais
informada sobre o mundo, e melhor preparada para inventar soluções para as
incertezas do presente. Em segundo lugar, os licenciados são mais diferentes
dos pais que noutros países, o que reforça o efeito de “geração”: a consciência
das suas capacidades e a recusa da frustração das suas expectativas, conjugadas
com a adopção de modalidades de acção que fogem aos esquemas políticos,
sindicais ou outros que canalizavam as acções da geração anterior criam um novo
tipo de agitação que incomoda alguns, mas é uma esperança para todos nós. Portugal
dos anos dois mil e dez está a “sofrer” um choque geracional talvez equivalente
ao que aconteceu em França nos anos 1960 e desembocou no Maio de 68.
José Rodrigues dos Santos
Antropólogo
jsantos@uevora.pt
19 de Outubro de 2012
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