segunda-feira, 29 de outubro de 2012

O “efeito geração” numa sociedade Educada



Um olhar antropológico - 95 (Publicado no Semanário "Registo", em 21 de Outubro de 2012)

O “efeito geração” numa sociedade Educada

Para que servem as universidades? O que justifica que a sociedade invista nelas recursos que poderiam ser empregues noutras coisas, porventura mais úteis? Do ponto de vista dos estudantes e das suas famílias, uma coisa é certa: o investimento nos estudos superiores é retribuído por uma notável diferença de rendimentos (após graduação) em relação aos não graduados. Diferença positiva que varia dum país para o outro, mas é importante e em Portugal é até muito superior à média europeia. Por outras palavras, ter um curso superior em Portugal produz um privilégio maior que nos outros países em relação a quem não tem esse tipo de curso. Isto vai contra a ideia de senso comum segundo a qual “não vale a pena estudar se é para não ganhar mais ou ficar desempregado, etc.” Tomando como base (100) os rendimentos dos trabalhadores que têm apenas o nível do secundário, os titulares de cursos superiores (25 aos 64 anos) auferem 170. A taxa de desemprego é também menos elevada (menos de metade), o que não surpreende (fonte “Education at a glance, OECD Indicators, 2012”). O efeito da educação a nível familiar é também uma mobilidade social ascendente e esse efeito é mais forte em Portugal. Porém há efeitos que ultrapassam de longe as vantagens individuais dos estudos universitários. Em primeiro lugar, um efeito cultural: uma sociedade que, como a portuguesa, tem cinco ou seis vezes mais licenciados que as duas gerações anteriores é mais culta, mais informada sobre o mundo, e melhor preparada para inventar soluções para as incertezas do presente. Em segundo lugar, os licenciados são mais diferentes dos pais que noutros países, o que reforça o efeito de “geração”: a consciência das suas capacidades e a recusa da frustração das suas expectativas, conjugadas com a adopção de modalidades de acção que fogem aos esquemas políticos, sindicais ou outros que canalizavam as acções da geração anterior criam um novo tipo de agitação que incomoda alguns, mas é uma esperança para todos nós. Portugal dos anos dois mil e dez está a “sofrer” um choque geracional talvez equivalente ao que aconteceu em França nos anos 1960 e desembocou no Maio de 68.


José Rodrigues dos Santos
Antropólogo
jsantos@uevora.pt

19 de Outubro de 2012

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

A alienação universitária 3 – O utilitário contra o desinteressado



Um olhar antropológico - 94 (Publicado no Semanário Registo em 18 de Outubro de 2012)

A alienação universitária 3 – O utilitário contra o desinteressado

O alto conceito de “Universidade” que tivemos (e alguns temos ainda) foi o produto duma longa história, muito menos linear do que se imagina. Iniciado em 1180 em Bolonha (no ano seguinte ao reconhecimento pelo Papa de Afonso Henriques como “Rex”), o processo de agregação das “escolas” privadas, de mestres individuais numa associação “universal” foi à partida utilitário. Foram os “burgueses” das novas cidades comerciantes que sentiram a necessidade de ensinar a ler, escrever e contar de forma eficaz aos seus filhos e propagaram a forma “universitas”. A invenção do cheque, das letras de crédito, indispensáveis ao comércio à distância (na Itália do Norte e nas cidades da Liga Hanseática), precisavam de pessoas com uma formação mais sólida… e mais universal. Pode parecer irrisório que fossem ler, escrever e contar a base do ensino universitário, mas entende-se melhor a importância dessas aprendizagens associadas à da língua comum a Germanos, Flamengos, Anglos, Francos, Lombardos ou Toscanos: o Latim, que daria acesso aos grandes textos da Antiguidade Clássica. Em breve surge o ensino, também utilitário, da Medicina, enquanto a Igreja forma os seus quadros à Teologia, que havia de servir de cimento ideológico à unificação político-religiosa da Cristandade. Segue-se um longo período de relativa decadência (séculos XVI a XVIII) em que as universidades se corrompem dando diplomas (por “equivalências”?) aos filhos dos poderosos. Foi sobretudo o século XIX que marcou a renovação das universidades e a construção do conceito que herdámos, com uma dupla valência: a ideia de “Cultura” e o prestígio da “Ciência”. A Cultura retomava a tradição das Humanidades na perspectiva romântica sobre o Renascimento; A Ciência apoiava-se numa quase religião em torno das novas ciências em construção, cuja vertente utilitária – tecnológica – foi a chave do seu sucesso na espiral da revolução industrial. Essas duas componentes nunca foram totalmente compatíveis. A primeira, tem vindo a definhar e está hoje em fase terminal. A segunda tornou-se um instrumento de formação de técnicos, abandonando o “fundamental” para um pequeno núcleo de instituições poderosas, raras… e caras.

José Rodrigues dos Santos
Antropólogo
jsantos@uevora.pt

sábado, 6 de outubro de 2012

A alienação universitária 1- O maravilhoso mundo estudantil



Um olhar antropológico - 92 (Publicado no Semanário Registo em 4 de Outubro de 2012)

A alienação universitária 1- O maravilhoso mundo estudantil

O conceito de “alienação” corresponde à tradução nas línguas latinas e em Inglês de pelo menos três expressões diferentes utilizadas por Marx para exprimir situações de perda da plena capacidade dum sujeito para percepcionar a sua situação na sociedade e no mundo, e para agir em conformidade com a realidade dessa posição. Mas a que nos interessa aqui é sobretudo aquela que aparece nos textos como “Entfremdung”: o processo de se tornar estranho, de se afastar de si próprio ao ponto de se tornar estrangeiro a si próprio (“Fremde” é o estrangeiro). Assim, por exemplo, uma classe inteira pode ignorar a sua posição na sociedade (Marx pensava nos trabalhadores), e agir como se o seu interesse (que desconhece) e o seu destino não importassem. Nada mais rigorosamente adequado que a noção de alienação para dar conta da relação que muitos “estudantes” universitários inscritos nas nossas universidades mantêm com as suas vidas. 
O mundo está em crise, a Europa, aqui à porta, em convulsões, o país afunda-se numa derrocada imparável sob a férula de iluminados adoradores dum modelo tão perfeito quanto irreal. As perspectivas de futuro para os jovens são terríveis, com taxas de desemprego dos jovens que se cifram, oficialmente, em 36,4% em Portugal, e mais de 52% na Espanha e na Grécia? Que importa? Em Portugal propõem-se hoje “empregos” a jovens engenheiros a 500€ por mês? Dezenas de milhares de diplomados, com licenciaturas e mestrados ficam à porta do mundo do trabalho? Há algum problema? “Não nos interessa”, é o que significa um modo de vida que mostra a nossa juventude alheada do seu próprio destino. Évora: chegam aqui, vindo de casa às segundas-feiras; às terças, quartas e quintas-feiras, bebedeiras, Sexta, regresso a casa dos pais, para descansar. 
Ausentes das aulas, ocupados, os mais velhos, a praxar os caloiros, impedidos estes de ir às aulas e de estudar, semeiam na cidade desmandos, cobrem os passeios do vomito da má cerveja vendida em dumping por bares sem vergonha que pelas 3 e meia das manhãs, entornam bandos de jovens bêbados para as ruas da cidade. Não é optimismo e confiança no futuro, é alienação: Entfremdung. Fatal.   

José Rodrigues dos Santos
Antropólogo
jsantos@uevora.pt

29 de Setembro de 2012