sábado, 6 de outubro de 2012

A alienação universitária 1- O maravilhoso mundo estudantil



Um olhar antropológico - 92 (Publicado no Semanário Registo em 4 de Outubro de 2012)

A alienação universitária 1- O maravilhoso mundo estudantil

O conceito de “alienação” corresponde à tradução nas línguas latinas e em Inglês de pelo menos três expressões diferentes utilizadas por Marx para exprimir situações de perda da plena capacidade dum sujeito para percepcionar a sua situação na sociedade e no mundo, e para agir em conformidade com a realidade dessa posição. Mas a que nos interessa aqui é sobretudo aquela que aparece nos textos como “Entfremdung”: o processo de se tornar estranho, de se afastar de si próprio ao ponto de se tornar estrangeiro a si próprio (“Fremde” é o estrangeiro). Assim, por exemplo, uma classe inteira pode ignorar a sua posição na sociedade (Marx pensava nos trabalhadores), e agir como se o seu interesse (que desconhece) e o seu destino não importassem. Nada mais rigorosamente adequado que a noção de alienação para dar conta da relação que muitos “estudantes” universitários inscritos nas nossas universidades mantêm com as suas vidas. 
O mundo está em crise, a Europa, aqui à porta, em convulsões, o país afunda-se numa derrocada imparável sob a férula de iluminados adoradores dum modelo tão perfeito quanto irreal. As perspectivas de futuro para os jovens são terríveis, com taxas de desemprego dos jovens que se cifram, oficialmente, em 36,4% em Portugal, e mais de 52% na Espanha e na Grécia? Que importa? Em Portugal propõem-se hoje “empregos” a jovens engenheiros a 500€ por mês? Dezenas de milhares de diplomados, com licenciaturas e mestrados ficam à porta do mundo do trabalho? Há algum problema? “Não nos interessa”, é o que significa um modo de vida que mostra a nossa juventude alheada do seu próprio destino. Évora: chegam aqui, vindo de casa às segundas-feiras; às terças, quartas e quintas-feiras, bebedeiras, Sexta, regresso a casa dos pais, para descansar. 
Ausentes das aulas, ocupados, os mais velhos, a praxar os caloiros, impedidos estes de ir às aulas e de estudar, semeiam na cidade desmandos, cobrem os passeios do vomito da má cerveja vendida em dumping por bares sem vergonha que pelas 3 e meia das manhãs, entornam bandos de jovens bêbados para as ruas da cidade. Não é optimismo e confiança no futuro, é alienação: Entfremdung. Fatal.   

José Rodrigues dos Santos
Antropólogo
jsantos@uevora.pt

29 de Setembro de 2012