Um olhar
antropológico - 92 (Publicado no Semanário Registo em 4 de Outubro de 2012)
A alienação universitária
1- O maravilhoso mundo estudantil
O conceito de “alienação” corresponde à tradução nas línguas
latinas e em Inglês de pelo menos três expressões diferentes utilizadas por
Marx para exprimir situações de perda da plena capacidade dum sujeito para
percepcionar a sua situação na sociedade e no mundo, e para agir em
conformidade com a realidade dessa posição. Mas a que nos interessa aqui é
sobretudo aquela que aparece nos textos como “Entfremdung”: o processo de se tornar
estranho, de se afastar de si próprio ao ponto de se tornar estrangeiro a si
próprio (“Fremde” é o estrangeiro). Assim, por exemplo, uma classe inteira pode
ignorar a sua posição na sociedade (Marx pensava nos trabalhadores), e agir
como se o seu interesse (que desconhece) e o seu destino não importassem. Nada
mais rigorosamente adequado que a noção de alienação para dar conta da relação
que muitos “estudantes” universitários inscritos nas nossas universidades
mantêm com as suas vidas.
O mundo está em crise, a Europa, aqui à porta, em
convulsões, o país afunda-se numa derrocada imparável sob a férula de
iluminados adoradores dum modelo tão perfeito quanto irreal. As perspectivas de
futuro para os jovens são terríveis, com taxas de desemprego dos jovens que se
cifram, oficialmente, em 36,4% em Portugal, e mais de 52% na Espanha e na
Grécia? Que importa? Em Portugal propõem-se hoje “empregos” a jovens
engenheiros a 500€ por mês? Dezenas de milhares de diplomados, com
licenciaturas e mestrados ficam à porta do mundo do trabalho? Há algum
problema? “Não nos interessa”, é o que significa um modo de vida que mostra a
nossa juventude alheada do seu próprio destino. Évora: chegam aqui, vindo de casa
às segundas-feiras; às terças, quartas e quintas-feiras, bebedeiras, Sexta, regresso
a casa dos pais, para descansar.
Ausentes das aulas, ocupados, os mais velhos,
a praxar os caloiros, impedidos estes de ir às aulas e de estudar, semeiam na
cidade desmandos, cobrem os passeios do vomito da má cerveja vendida em dumping
por bares sem vergonha que pelas 3 e meia das manhãs, entornam bandos de jovens
bêbados para as ruas da cidade. Não é optimismo e confiança no futuro, é
alienação: Entfremdung. Fatal.
José Rodrigues dos Santos
Antropólogo
jsantos@uevora.pt
29 de Setembro de 2012